Muito além das baquetas

A data de hoje merece um post extra! Neil Peart, baterista do power trio canadense Rush, e autor de 95% das (fantásticas) letras da banda, além de vários livros, estaria completando 69 anos. Morreu em 07 de janeiro de 2020, vítima de tumor no cérebro. Que perda…

Mesmo achando estranho certas manifestações excessivas de comoção por gente que nunca conheceu o ídolo pessoalmente, é impossível negar como mexe saber da partida daquele que era considerado o melhor baterista de rock da história e um dos melhores em qualquer estilo de todos os tempos.

Neil Peart mudou a história da bateria e seu papel no Rock. Bem como as temáticas abordadas pelas letras das músicas deste estilo

O cara que me fez tocar bateria

Me acompanha diariamente desde meus 13 anos de idade, quando fui apresentado ao Rush pelo André “Manéu” Carvalho, amigo de infância. O disco era o recém-lançado “Grace Under Pressure“, com um tom mais pop que o habitual pro estilo da banda, sintetizadores e timbres eletrônicos nas percussões, bem anos 80. Mas, que letras!!! E, ao descobrir pelas fitas cassete o que era possível fazer numa bateria, não hesitei: era o que eu queria pra mim. Larguei os 2 anos de piano e fui aprender bateria sozinho.

Bem mais que simples influência em meu estilo de tocar ou de contar uma estória, Peart sempre foi pra mim referência de vida, foco, seriedade, disciplina, entrega, comprometimento, postura e discrição.

Eu passava em camera lenta os vídeos dele no VHS pra analisar movimentos, olhares antecipando o próximo tambor ou prato a ser golpeado numa virada de mais de mil notas. Compassos quebrados (em alguns casos, na mesma frase, sai de 4/4 pra 5/8, 13/8 e volta pra 4/4); viradas e solos de tirar o fôlego; um kit 360º com gongo, xilofone, escalas de agogô, pratos e tambores em profusão (mas usando cada recurso. Nada alí era enfeite). E acima de tudo, um virtuose! Parecia se teleportar para outra dimensão ao empunhar as baquetas. Foco absoluto, comprometimento na veia. Um ser de outro planeta.

Letrista (e frasista) de mão cheia, fez das músicas do Rush convites à reflexão e questionamento de como pensamos e agimos, hinos de alerta à indiferença ao outro (“Nobody’s Hero”, ”The Pass”), à segregação (“Subdivisions”, “Territories”), ao amor banal (“Entre Nous”, “Different Strings”, “Open Secrets“), ao descaso com a natureza (“Red Tide”), à guerra (“Distant Early Warning“, “Second Nature”, “Manhattan Project”), à limitação de pensamento (“Free Will”, “Limelight”, “Closet to The Heart”), à intolerância (“Witch Hunt”) só pra citar alguns exemplos…. difícil aceitar essa enxurrada de letrinhas redundantes que temos hoje, repetindo os mesmos temas (o amor impossível, a traição, a sofrência) depois que se tem contato com as escritas por Peart, teses filosóficas da psiquê humana em forma de música, né?

Alguns dos livros escritos por Peart durante as turnês do Rush

Super low profile, era a materialização perfeita e literal do ditado “Deixe seus atos fazerem barulho por você”. Com todos os trocadilhos cabíveis. Nunca se vangloriou de ser o melhor. Mas nunca era considerado em concursos, que só escolhiam (durante mais de 30 anos seguidos) quem era o melhor baterista do Mundo depois do Peart. Sempre que abordado por um fã (comumente com a frase “Você é a inspiração para eu tocar bateria“), rejeitava o pedestal e retrucava “Peça desculpas a seus pais por mim!“.

Numa ocasião, Neil estava abastecendo sua moto em um ponto qualquer do interior americano, longe de tudo (além de baterista, letrista e escritor, era motoqueiro de longas trilhas. Chegou a cruzar as Américas do Canadá ao Peru. Tinha na moto sua terapia). Ao terminar de abastecer, foi reconhecido por outro motoqueiro errante, que também havia parado para encher o tanque. “Você é…”. Neil nem deixou o fã incrédulo terminar a pergunta. Só balaçou a cabeça afirmaivamente e já emendou perguntando sobre o modelo da moto que acabara de chegar. Falaram sobre motos, trilhas, condições das estradas, sobre a vida, sobre tudo… menos sobre bateria ou música. Ao terminarem o almoço no Diner do posto, o fã perguntou a Peart para onde ia. “Norte”, respondeu o músico. “Que pena, acabei de vir de lá. Estou seguindo pro leste agora. Algum conselho?”. Mesmo sabendo que a pergunta era sobre a estrada, Neil não perdeu a oportunidade e, sorrindo, soltou: “Seja seu próprio herói!”.

Neil e sua inseparável companheira de estrada. Ele dispensava o avião para ir com ela de uma cidade para outra entre shows

Deixa sua marca para sempre

Mais profunda que jamais poderia imaginar. Muito obrigado por tudo, Neil!!! Fica aqui um dos trechos mais lindos de suas composições, e que fala justamente sobre a amizade e a vida: “Time Stand Still

Summer’s going fast
Nights growing colder
Children growing up
Old friends growing older

Freeze this moment
A little bit longer
Make each sensation
A little bit stronger

Experience slips away
Experience slips away
The innocence slips away”

Para mais histórias e curiosidades, inscreva-se no blog www.edusantoro.blog.

Publicado por Edu Santoro

Mais de 30 anos de experiência nas áreas de produção internacional, gestão de problemas, planejamento, logística e execução dos mais diversos tipos de produtos e eventos. Além de Restauranteur, enófilo e empreendedor, palestrante, curioso nível hard, é apaixonado por História, viagens, fotografia, tecnologia, cervejas, vinhos, whiskeys, whiskys, culinária, Agilidade e qualquer ferramenta ou conhecimento - ainda que não relacionado à sua formação de origem - que possa auxiliar na meta de tornar a vida mais leve e prática. Pra completar, mais duas paixões: o storytelling e o prazer de difundir o que aprende.

3 comentários em “Muito além das baquetas

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