Chá Gelado, com leite e outras inventações.

Dando sequência à nossa Saga do Chá, vamos a mais um capítulo, antes que esse friozinho de pós-inverno acabe. Como eu avisei, não se conta mais de 4 milênios de histórias e sabores em apenas um post….

No primeiro post (“Por que o inglês tem o “Chá das Cinco?”), desvendamos o mistério de uma tradição inglesa (que nem inglesa era). No segundo (“Chá ou Tea? Tem diferença?), conhecemos como nasceu o chá, como se espalhou pela Europa e, de quebra, ainda descobrimos por que ele tem nomes diferentes dependendo do país em que o tomamos.

Agora, a gente vai saber como ele atravessou o oceano, e que adendos e formas de preparo ganhou nesses quase 5 mil anos de estrada.

Leite no chá?

Pode soar estranho para nós, por falta de costume. Mas, observando-se o princípio da mistura (quimicamente falando) e seguindo-se algumas regras, faz todo sentido.

O praticante mais famoso deste hábito é o britânico (até pela quantidade de consumo per capita da bebida, né?). Mas os indianos também fazem uso da mistura. Apenas de uma forma diferente. Há séculos, a Índia usa especiarias típicas da Ásia  (principalmente o gengibre e canela) misturadas ao leite, para manter o corpo aquecido no inverno. Quando os ingleses colonizaram o país (de 1858 a 1947) e trouxeram com eles o hábito de tomar chá com leite, a adição dessas especiarias à mistura foi algo natural. Nasceu assim o Chai, (pronuncia-se tchai) ou Chai Latte). A diferença fundamental em relação ao chá inglês é que, no Chai, a erva e especiarias sofrem infusão diretamente no leite quente, sem adição de água, tornando a bebida mais densa e vigorosa.

Gengibre, canela, cravo, cardamomo, aniz…
Quando culturas se fundem, novas mágicas acontecem, como a criação do Chai indiano.

Já o inglês faz o chá normalmente, ocupando ⅔ da xícara e, depois de retirar o infusor com a erva da água quente, coloca uma pequena quantidade de leite. Este “acréscimo” confere cremosidade e delicadeza à bebida. Só tome cuidado com um detalhe: nunca cometa a gafe (principalmente na frente de um inglês) de colocar leite em qualquer chá. Apenas aceitam leite (e é só um golinho! Nada de meio a meio) os chás fortes preto e Earl Grey (que é chá preto com bergamota). Para os demais, coloque somente leite vegetal (mais suave que o de vaca) ou limão (pra dar um frescor cítrico). Para chá branco, nada. Por ser muito suave, qualquer acréscimo esconderia seu sabor delicado.

Apenas alguns tipos de chás aceitam a inclusão de leite. Limão e açúcar já combinam com quase todos.

Agora, mais do que gosto pessoal, estamos falando de um achado brilhante, gostemos ou não do resultado. Do ponto de vista químico, as folhas do chá preto são carregadas de tanino, aquela substância amargosa e adstringente (que dá uma travada entre a língua e o céu da boca porque aglutina e ‘sequestra’ as moléculas de gordura da cavidade bucal). A gordura e a lactose do leite servem exatamente para suavizar este amargor e trava, desagradáveis para muita gente. 

Estranho? Bem, mas é exatamente o mesmo princípio que faz “Queijos e Vinhos” serem um sucesso mundial. A gordura do leite e a doçura da lactose que compõem o queijo ajudam a suavizar a adstringência e amargor do tanino encontrado na casca da uva que faz o vinho tinto. E esta adstringência ajuda a “limpar” a boca para receber o sabor de um novo pedaço de queijo. Uma simbiose perfeita entre elementos. Não é à toa que a primeira menção ao chá com leite da História surge em 1680 na França, país que disputa com a Itália o título de berço mundial da vitivinicultura e que tem 365 tipos diferentes de queijos, um para cada dia do ano.

A combinação de queijos e vinhos (muito familiar a nós) segue o mesmo princípio
do chá com leite (que estranhamos tanto).

Cruzando o Atlântico

Retomando os caminhos percorridos pelo chá em sua conquista Mundo afora, finalmente nossa rota da bebida chega ao continente americano. Como?

Peter Stuyvesant, político e militar holandês, foi o último diretor geral da colônia holandesa de “Novos Países Baixos” (na ainda pouco povoada América) e seu principal vilarejo, “Nova Amsterdam” (hoje também conhecida como Nova York). Dentre seus principais feitos, estão a construção de Wall Street (originalmente um muro de proteção aos ataques de invasores – principalmente ingleses – pelo sul da ilha de Manhattan), a Broadway (o aterramento de um canal que cruzava a cidade) e trazer o chá de sua terra natal em 1650. Caiu no gosto dos colonos americanos! Quando a cidade passou para as mãos da Inglaterra, em 1664, os britânicos constataram que, só naquela cidade, se consumia mais chá do que em todo o Reino Unido. 

Nova Amsterdam (atual Nova York):
porta de entrada do chá na América do Norte pelas mãos de um holandês.

O chá também teve destaque de protagonista na origem da revolta dos colonos americanos contra o poder da coroa inglesa. Os impostos abusivos aplicados desde 1667 aos carregamentos ingleses de chá que chegavam ao território americano serviam para cobrir os custos da guerra contra os franceses e os índios pelo território, além de tirar a Companhia Britânica das Índias Orientais e Ocidentais da falência. Claro que não era uma conta que os colonos queriam pagar. Mas imposto alto foi só um pretexto para a rebelião. O que incomodou mais os colonos foi o abuso de autoridade do Parlamento britânico sobre o novo continente (quase um “não é só pelos 20 centavos” da época). Resultado: em 1773, 342 caixas de chá inglês de três navios são jogadas ao mar pelos rebeldes no porto de Boston, no que ficou conhecida como a “Boston Tea Party”. E, três anos depois, é declarada a independência dos Estados Unidos. Menos de um século depois, em 1834, com as reduções nos impostos e com o fim do monopólio da Companhia das Índias, a bebida ficou tão acessível e popular que ultrapassou a cerveja.

O chá foi o pivô da revolta (Boston Tea Party) que culminou com a independência dos EUA.

Chá gelado, em caixinhas, em saquinhos, etc….

A criatividade humana não tem mesmo limites. Abaixo, alguns exemplos de como a inventividade proporcionou saltos ainda maiores à expansão do chá e à forma de como o consumimos.

Chá a vácuo, em pacotes, caixinhas e latinhas.

Ao final do século XIX, o inglês Thomas Lipton (esse nome lhe é familiar?) sacudiu o mercado do chá ao criar culturas próprias (grandes plantações no Ceilão) e, aproveitando-se das facilidades vindas da Revolução Industrial, introduzir sacos, caixinhas e latinhas pré-empacotados para preservar o aroma e características da planta por mais tempo (antes disso, as folhas eram vendidas apenas a granel em grandes sacos e expostas ao oxigênio, perdendo rapidamente seu sabor).

Lipton revolucionou ao produzir o próprio chá, vendê-lo em embalagens lacradas e a construir a imagem da empresa em torno de uma pessoa, antecedendo Jobs e Musk.

Chá gelado

Os Estados Unidos da América, com um governo estável e a economia a todo vapor, quiseram mostrar a sua evolução ao mundo em 1904 com a Exposição Internacional de St. Louis. Pra se ter uma noção da pompa deste evento, o “stand” do Brasil foi o Palácio Monroe, todo em mármore. A Exposição anterior, em 1900, ocorreu em Paris. E o “stand” da França, que também era o Portal de entrada do pavilhão, foi nada menos que a Torre Eiffel, assunto pra outro post). No meio dos comerciantes que mostravam o seus produtos estava o inglês Richard Blechynden, dono de uma plantação de chá. O seu objetivo era distribuir chá quente aos visitantes, aproveitando o ar sofisticado do evento. Mas uma inesperada onda de calor estragou seus planos. Para não perder a mercadoria, despejou blocos de gelo nos tanques e serviu os primeiros chá gelados da História, hoje em dia bastante populares em todo o mundo, o “Iced Tea”.

Ainda que haja quem diga que o chá gelado já existisse desde 1860, foi na Exposição Internacional de1904 (a maior do Mundo até então, com 50 países) que ele ficou conhecido pelo grande público.

Chá em saquinhos

Em 1908, o norte-americano Thomas Sullivan desenvolveu, por acidente, o conceito de chá em saquinhos individuais. A ideia era enviar amostras para restaurantes provarem os diferentes tipos de chás que ele vendia para, depois, estes estabelecimentos pedirem as caixas a granel dos tipos que mais tinham gostado. Porém, ao constatar que as amostras acabavam sendo servidas nos próprios saquinhos, Sullivan abraçou o novo modelo e lançou-se no negócio!

Um dos grandes achados da história do chá foi acidental. Era para serem amostras em sacos de linho, mas os clientes jogavam tudo na água quente em vez de usar só seu conteúdo.

Diferenças muito mais pelo tipo de preparo do que pela variedade de plantas.

O segredo da preparação do chá sempre foi muito bem guardado pelos chineses. Só em 1843 descobriu-se que todos os tipos de chá até então provinham de uma mesma planta, a Camellia sinensis, a mesma que deu ao Imperador chinês Shen Nong, em 2.737 a.C., o primeiro chá da História (veja em “Chá ou Tea? Tem diferença?). O que os diferencia é a região em que são cultivados e o tratamento das folhas após a colheita.

Em todo o mundo, o chá é dividido em três categorias: “verde” (não fermentado),  “Oolong” (parcialmente fermentado) e “preto” (totalmente fermentado). 

A procedência, o solo, o clima, a seleção e a preparação das folhas é que determinam as diferentes variedades existentes. O chá “verde” (não fermentado) é originário sobretudo da China e do Japão. O chá “Oolong” (semi fermentado) é oriundo de uma região chinesa chamada Foochow e de Taiwan. O chá “preto” (fermentado) é cultivado na Índia, Sri Lanka, na África Oriental, Japão e Taiwan. 

Outros tipos são: o jasmim (China), Darjeeling e o Assam (Nordeste da Índia e Sri Lanka) e os blended, que resultam da mistura de vários chás (como o Earl Grey), com cerca de 1500 (!!!) tipos de lotes diferentes. 

Uma infinidade de tipos diferentes, apenas variando a região de plantio ou preparo
da mesma planta (Camellia sinensis).

Volto a repetir: a história é longa, quase 5 mil anos de fatos, lendas e saberes, mas a ideia é essa mesma: contar de forma leve algumas das principais passagens. Se você sentiu falta de algum trecho que ficou de fora ou gostaria de se aprofundar mais em algum tópico já trazido aqui, deixa nos Comentários o seu recado que a gente resgata ou conta mais… vai ser um prazer!

Quer saber de mais histórias e curiosidades? Assine o www.edusantoro.blog!

Publicado por Edu Santoro

Mais de 30 anos de experiência nas áreas de produção internacional, gestão de problemas, planejamento, logística e execução dos mais diversos tipos de produtos e eventos. Além de Restauranteur, enófilo e empreendedor, palestrante, curioso nível hard, é apaixonado por História, viagens, fotografia, tecnologia, cervejas, vinhos, whiskeys, whiskys, culinária, Agilidade e qualquer ferramenta ou conhecimento - ainda que não relacionado à sua formação de origem - que possa auxiliar na meta de tornar a vida mais leve e prática. Pra completar, mais duas paixões: o storytelling e o prazer de difundir o que aprende.

2 comentários em “Chá Gelado, com leite e outras inventações.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: