A Origem do “Dia de Ação de Graças”

Faz um bom tempo que o blog não recebe uma atualizada. E nada melhor que uma data dupla para celebrar essa retomada: O Dia de Ação de Graças e a Black Friday. Ambas super conectadas. 

Apesar de a primeira ter tido pouco eco por aqui, restrito a alguns nichos específicos,  a segunda encontrou no Brasil acolhida tão boa ou melhor que a que teve em sua terra natal. Mas, vamos por partes, seguindo a ordem cronológica de seu surgimento e modificações.

O Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day) como conhecemos hoje, nasceu entre os colonos ingleses que habitavam a região onde hoje fica Plymouth, Massachusetts (antiga colônia da Nova Inglaterra), no nordeste dos Estados Unidos. E é, de longe, o feriado familiar de maior peso no calendário anual americano. Chega a superar o Natal ou o Ano Novo em termos de engajamento. Famílias viajam longas distâncias para se reunirem com parentes que moram em outros estados ou países.

Mas a história começa bem antes disso. Como já citei no post sobre a origem do Halloween, muitas celebrações da religião cristã e de ramificações derivadas dela (aqui, a anglicana) são incorporações de celebrações pagãs absorvidas ao longo do processo de cristianização de culturas já existentes. A fim de facilitar a aceitação da nova crença, criava-se uma resignificação com um viés católico para datas de um calendário já praticado anteriormente.

Exemplos não faltam (Dia de Todos os Santos, Finados, Natal, Carnaval, Páscoa, e por aí vai…). Com o Dia de Ação de Graças não foi diferente.

Ele começou ainda na América colonial, celebrando o fim da colheita (ato tradicional dos povos celtas, anglos e saxões. Mais detalhes também no post sobre o Halloween, citado acima).

Além do agradecimento à fartura de alimento fornecido pela Mãe Natureza, somaram-se a gratidão por tudo que aconteceu no ano que passou, inclusive as viagens seguras dos novos colonos que cruzavam o Atlântico vindos (em número cada vez maior) da Inglaterra e as vitórias militares nas batalhas (frequentes à época, contra os franceses ao norte e os espanhóis ao sul) pela expansão territorial da maior colônia britânica no novo continente.

O nome e a data

O nome Thanksgiving significa literalmente “Agradecer”. Dadas as características da língua portuguesa à época em que a tradição chegou ao Brasil, principalmente pelas mãos dos protestantes americanos ao fim do século XIX e início do XX, a tradução ficou registrada como Dia de Ação de Graças (que é “agradecer”, só de uma forma mais clássica, erudita). 

O ato teve início nos Estados Unidos em 1620, quando a região de Plymouth teve uma generosa safra de milho, depois de anos de invernos rigorosos e poucas chuvas. A inspiração veio do Dia da Colheita – ainda hoje celebrada na Inglaterra e continente europeu, originada nos celtas – que ocorria na primeira lua cheia após o equinócio de outono (lembre que estamos falando de hemisfério norte) e que coincidia com o fim do ciclo de colheita. Algo em torno do fim de novembro. 

Isto também explica o porquê da data ser celebrada mais cedo no Canadá (na segunda segunda-feira de Outubro). Devido à posição do país bilingue ser mais próxima ao Polo Norte, a colheita canadense ocorre antes da americana, porque esfria mais cedo por lá.

Voltando a Massachusetts, a ação foi tão bem acolhida pelos fundadores da vila que o governador decidiu repeti-la no ano seguinte, só que maior. Organizou então a “Festa de Outono”. No cardápio, pratos variados como milho, peixe, pato e o famoso peru. Nascia ali não só a primeira comemoração de porte documentada em solo americano, mas também a mais simbólica a unir colonos ingleses e povos nativos indígenas sob a mesma motivação. Daí a virar tradição, foi um pulo.

Representação artística de Frederic Lewis para a primeira celebração do Dia de Ação de Graças,
com colonos e indígenas dividindo a mesa

A inclusão da celebração no calendário oficial ocorreu em 1863, pelas mãos do então presidente americano Abraham Lincoln. Assim como a Páscoa e o Carnaval (que também são baseados no calendário lunar), o Thanksgiving oscilava no calendário Gregoriano de um ano para o outro. Então, para facilitar o planejamento das viagens, Lincoln instituiu a quarta quinta-feira de Novembro como data fixa. Mas o status de feriado oficial só veio em 1941, pelo Congresso Nacional americano, provocado pelo presidente Franklin Roosevelt.

E a tradição perpetua-se

O roteiro obrigatório de uma boa celebração do dia inclui, além de reunir o maior número de gerações de uma família, alguns pontos cruciais. Um deles é passar o tempo livre colocando a conversa em dia com parentes, ao redor de uma mesa com o cultuado peru, purê de batatas, molho de cranberry, nozes, milho, pão recheado e cookies, tortas de abóbora e de maçã para sobremesa. 

Mesa típica para a celebração.

Aproveitando o clima familiar, as razões pelo que se é grato ao longo do ano, reflexões sobre o que se passou e pedidos de bençãos para o que irá ocorrer no ano seguinte guiam o contexto das orações em conjunto.

Mas a celebração não fica restrita ao interior das casas. 

Tomando as ruas

Nas grandes cidades americanas, desfiles com carros alegóricos, infláveis gigantes dos mais variados formatos, dançarinos e fanfarras tomam conta das principais avenidas. Algo parecido com o Carnaval no Brasil, o Mardi Grás de Nova Orleans ou o Dia de São Patrício na Irlanda. Quem já viu “Curtindo a Vida Adoidado”, filme clássico dos anos 1980 com Matthew Broderick cantando “Twist and Shout” dos Beatles, sabe do que estou falando.

A famosa parada da Macy’s em Manhattan tem de Snoopy a Dragon Ball, sem abandonar os clássicos.

A mais conhecida do mundo é a promovida há mais de 90 anos pela loja de departamentos Macy’s na Quinta Avenida, em Manhattan, centro de Nova York, com transmissão nacional pela TV. 

E em outros países, como é?

Além de Estados Unidos e Canadá, que já comentei aqui, alguns países celebram a data. Só que de forma bem mais acanhada, se compararmos com outras festas de formato famoso com origem americana que extrapolaram as fronteiras físicas da terra do Tio Sam (como o Halloween, por exemplo). 

Granada, no Caribe; Ilhas Norfolk, na Austrália; Holanda, na Europa e Libéria, na África são alguns deles. Libéria, muito mais por suas ligações embrionárias com os Estados Unidos (aliás, essa história é incrivel e merece um post à parte).

No Brasil, também não temos no sangue esta comemoração. Por motivos óbvios: 1) fomos colonizados por Portugal e não pela Inglaterra; e 2) nossa colheita não se encerra em Outubro, quando estamos no meio da primavera. Tanto aqui quanto em terras lusas, a tradição vive mais nas igrejas que têm raízes britânicas ou norte-americanas (anglicanas, batistas, protestantes, luteranas, presbiterianas e metodistas), além dos cursos de lingua inglesa, que difundem a cultura americana.

Mesmo tendo virado lei (nº 781, de 17 de agosto de 1949) pelas mãos do Presidente Dutra a pedido de Joaquim Nabuco (à época Embaixador do Brasil em Washington (D.C.), o Dia Nacional de Ação de Graças é conhecido pelo brasileiro, mas não comemorado. Conhecemos a data muito mais por filmes e séries americanas do que por seu simbolismo. 

Quem não se lembra da clássica cena de Friends sobre a data, com Chandler e Monica?

Algumas instituições isoladamente, como o Comitê Brasileiro do Movimento de Resgate do Dia Nacional de Ação de Graças, dedicam-se a ampliar a conscientização sobre a data. No site do projeto, você encontra – além de orações e ações para enaltecer o espírito da data – receitas típicas para fazer em casa e reunir à família numa refeição temática.

O tema pode ser uma boa desculpa para reunir família e amigos e compartilhar novos sabores e experiências.

Aqui no Brasil, ao contrário do Thanksgiving, o que achou acolhida mesmo foi a data criada como consequência da primeira: a Black Friday. Mas isso é assunto pro post de amanhã…


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Publicado por Edu Santoro

Mais de 30 anos de experiência nas áreas de produção internacional, gestão de problemas, planejamento, logística e execução dos mais diversos tipos de produtos e eventos. Além de Restauranteur, enófilo e empreendedor, palestrante, curioso nível hard, é apaixonado por História, viagens, fotografia, tecnologia, cervejas, vinhos, whiskeys, whiskys, culinária, Agilidade e qualquer ferramenta ou conhecimento - ainda que não relacionado à sua formação de origem - que possa auxiliar na meta de tornar a vida mais leve e prática. Pra completar, mais duas paixões: o storytelling e o prazer de difundir o que aprende.

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